A transformação digital do Poder Judiciário brasileiro alterou a dinâmica da atuação pericial. O que desde sempre se baseou em documentos físicos passou a ser conduzido. Raros são os processos que ainda estão em meio físico.
Nesse novo cenário, a perícia digital deixou de ser uma possibilidade futura e passou a ser a realidade cotidiana do perito contábil. A análise de documentos eletrônicos — muitas vezes complexos, volumosos e descentralizados — exige domínio técnico, maior rigor metodológico e uma postura crítica ainda mais apurada.
Este artigo dá continuidade à série O Futuro da Perícia Contábil e aborda desafios e cuidados relacionados à análise de evidências digitais, destacando a importância da segurança, rastreabilidade e consistência técnica no trabalho pericial.
A digitalização dos processos judiciais: um novo ambiente de atuação
Com a implementação dos processos eletrônicos, o perito contábil passou a atuar em um ambiente integralmente digital, no qual:
- os processos são acessados por sistemas eletrônicos, às vezes por algum tempo convivendo com dois sistemas (Em São Paulo, os sistemas esaj e eproc estão ativos, até que o eproc substitua totalmente o esaj);
- os documentos são apresentados em formatos digitais;
- grande parte das interações processuais ocorrem por meio de plataformas virtuais;
- os volumes de informação tendem a crescer significativamente.
Essa mudança trouxe ganhos importantes — como agilidade e acessibilidade —; porém, aumentou a complexidade da análise pericial. O desafio deixou de ser apenas técnico-contábil e passou a incluir a gestão de informações digitais.
Tipos de documentos analisados na perícia em ambiente digital
A atuação pericial hoje envolve uma ampla variedade de documentos eletrônicos, que vão além de relatórios contábeis físicos (livros e demonstrações contábeis).
Entre os mais comuns, destacam-se, sem a eles se limitar:
Arquivos em PDF
- contratos digitalizados;
- notas fiscais;
- demonstrativos contábeis;
- petições e documentos juntados aos autos.
Embora sejam amplamente utilizados, os PDFs exigem atenção quanto à autenticidade, origem e possível edição.
🖥️ Sistemas ERP e extrações de dados
Muitas perícias envolvem dados extraídos de sistemas de gestão empresarial (ERPs), tais como:
- livros contábeis digitais;
- razão e diário;
- relatórios gerenciais;
- bases de dados exportadas.
Nesse caso, o perito precisa compreender a origem sistêmica da informação e avaliar sua consistência.
📧 E-mails e comunicações eletrônicas
E-mails vêm sendo usados como evidência, especialmente em disputas empresariais e contratuais.
A análise deve considerar:
- início, meio e término de janelas temporais;
- contexto da comunicação;
- autenticidade;
- relação com os fatos discutidos;
- consistência com outros documentos.
📊 Planilhas e bases de dados digitais
Planilhas eletrônicas sintetizam informações relevantes, mas exigem cautela:
- podem conter fórmulas ou premissas não explicitadas;
- podem ser facilmente alteradas;
- nem sempre refletem fielmente a origem dos dados.
O perito deve buscar a validação dessas informações com base em documentos primários e racionais descritivos do conteúdo dessas planilhas.
Alguns cuidados necessários na análise pericial de documentos digitais
A facilidade de acesso e replicação de arquivos digitais traz um risco adicional: a falsa impressão de confiabilidade automática. Por isso, alguns cuidados são indispensáveis.
🔗 Cadeia de custódia da informação
A cadeia de custódia refere-se ao controle sobre:
- a origem do documento;
- o modo como foi obtido;
- quem teve acesso ao material;
- eventuais alterações ou manipulações.
Na perícia em ambiente digital, esse controle é fundamental para garantir a credibilidade da prova analisada.
🧠 Análise crítica da informação digital
Talvez o ponto mais importante seja este:
👉 documentos digitais não são, por si, confiáveis — eles devem ser analisados criticamente.
O perito precisa questionar:
- a origem do documento;
- sua finalidade;
- sua coerência com o contexto do processo;
- sua relação com outras evidências.
A tecnologia facilita o acesso, mas não substitui o julgamento técnico.
Organização, metodologia e rastreabilidade do trabalho pericial
Diante do volume e da diversidade de informações digitais, a organização do trabalho pericial é um fator crítico de qualidade. Mais do que nunca, peritos são gestores de projetos e administradores de seus tempos.
Na prática, isso envolve:
- estruturação lógica de arquivos e bases analisadas;
- controle de versões de documentos;
- registro dos procedimentos realizados;
- documentação clara da metodologia adotada;
- manutenção da rastreabilidade entre evidências e conclusões.
Na atuação de escritórios estruturados, como a IRPE, esses cuidados são essenciais para garantir que o laudo seja:
- consistente;
- verificável;
- tecnicamente defensável.
O erro comum: subestimar o documento eletrônico
Um equívoco recorrente — especialmente entre profissionais menos experientes — é tratar o documento eletrônico como menos relevante ou menos confiável do que o físico.
Na prática, ocorre o oposto.
Documentos digitais:
- podem conter um volume maior de informações;
- permitem análises mais profundas;
- exigem mais cuidado técnico na validação;
- podem ser determinantes para a conclusão pericial.
O problema não está no formato digital, mas na falta de análise adequada.
Maturidade técnica no ambiente digital
A atuação pericial no contexto digital exige uma postura profissional mais estruturada e sofisticada.
O perito contábil preparado:
- domina a análise de diferentes tipos de evidência digital;
- aplica metodologia rigorosa;
- mantém organização e rastreabilidade do trabalho;
- adota postura crítica frente às informações analisadas. Na prática, é o ceticismo profissional, um habitus comum na auditoria, que pode e deve ser replicado na perícia contábil;
- respeita os limites técnicos e éticos da prova pericial.
Mais do que adaptar-se ao processo digital, é necessário atuar com segurança e consistência dentro dele.
Conclusão
A perícia digital é a realidade atual da perícia contábil. A análise de documentos eletrônicos é item central do trabalho do perito, exigindo novos cuidados, competências e metodologias.
O ambiente digital amplia as possibilidades de análise, mas também aumenta a responsabilidade do perito na validação das informações e na construção de conclusões técnicas sólidas.
A qualidade da perícia não está no formato do documento, mas na capacidade do perito de analisá-lo com rigor, organização e senso crítico.
O processo de mudança é permanente. Perceber esta condição e preparar-se para “surfar” de forma correta e eficiente nesta onda contribui para a formação, reciclagem e educação profissional continuada. Ainda, oferece um ambiente de trabalho permanentemente desafiador e seguro.
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