Impactos e Desafios para a Perícia Contábil
A transformação digital alterou de forma significativa a maneira como as informações contábeis são geradas, registradas e armazenadas. Entre as tecnologias que mais despertam interesse — e, ao mesmo tempo, exigem reflexão crítica — está o blockchain.
Frequentemente associado a criptomoedas, o blockchain vai muito além disso. Trata-se de uma tecnologia com potencial para impactar diretamente a forma como registros contábeis, contratos e transações são documentados, armazenados e auditados.
Para a perícia contábil, esse cenário traz uma combinação de oportunidades e desafios técnicos relevantes. Mais do que compreender o conceito, o perito precisa entender como interpretar esses novos tipos de evidência dentro do contexto da prova pericial.
Neste artigo, damos sequência à série O Futuro da Perícia Contábil, explorando o papel do blockchain na rastreabilidade das informações e seus reflexos na atuação do perito contábil.
O que é Blockchain: uma visão aplicada ao contexto contábil
Blockchain é uma tecnologia de registro distribuído, que permite armazenar informações de forma imutável, segura e rastreável, sem a necessidade de um único ente centralizador.
Na prática, isso significa que:
- as informações são registradas em blocos interligados;
- cada novo registro é validado por um conjunto de participantes da rede;
- uma vez registrado, o dado não pode ser alterado sem deixar rastros;
- há uma trilha completa de todas as transações realizadas.
No contexto contábil e financeiro, essa lógica pode ser aplicada a:
- registros de transações;
- contratos digitais (smart contracts);
- movimentações de ativos;
- controles patrimoniais.
Para o perito contábil, o ponto central não é a tecnologia em si, mas a qualidade e confiabilidade das informações que ela registra.
Rastreabilidade e Imutabilidade: o que muda para a perícia contábil
Do ponto de vista técnico, o blockchain fortalece duas características fundamentais da informação: a rastreabilidade e a imutabilidade.
Rastreabilidade
A tecnologia permite acompanhar toda a cadeia de eventos associada a um determinado registro. Em tese, isso possibilita:
- identificar a origem de uma transação;
- acompanhar suas alterações (quando aplicável);
- verificar a sequência cronológica dos registros;
- reconstruir fluxos financeiros ou operacionais.
Para a perícia contábil, a rastreabilidade pode facilitar análises que hoje exigem grande esforço de reconciliação de dados.
Imutabilidade
Uma vez registrado no blockchain, o dado não pode ser alterado sem comprometer toda a estrutura subsequente. Isso reduz significativamente o risco de:
- adulteração de registros;
- manipulação posterior de dados;
- inconsistências não rastreáveis.
Sob uma perspectiva superficial, isso poderia sugerir que o blockchain “resolve” problemas de confiabilidade da informação. No entanto, a realidade é mais complexa — e exige cautela.
Blockchain não elimina a necessidade de análise pericial
Um erro comum é assumir que registros em blockchain seriam automaticamente verdadeiros e dispensariam validação técnica. Essa interpretação é incorreta.
O blockchain garante a integridade do registro, mas não garante a veracidade do conteúdo registrado.
Na prática, isso significa que:
- um dado incorreto pode ser registrado de forma imutável;
- a origem da informação continua sendo um fator crítico;
- a análise do contexto econômico e contábil permanece essencial.
Para o perito, isso reforça um princípio fundamental:
👉 não existe prova autoexplicativa — toda evidência precisa ser interpretada tecnicamente.
Impactos práticos na atuação do perito contábil
À medida que o uso de blockchain se expande, o perito contábil passa a se deparar com novos tipos de evidência e estruturas de informação.
Novos objetos de análise
O escopo pericial pode passar a incluir:
- registros de transações em redes blockchain;
- análise de carteiras digitais e movimentações de criptoativos;
- verificação de smart contracts e suas execuções;
- integração entre sistemas tradicionais e registros descentralizados.
Necessidade de compreensão técnica interdisciplinar
O perito contábil não precisa se tornar um especialista em tecnologia, mas precisa entender:
- como os dados são registrados;
- como podem ser acessados e interpretados;
- quais são as limitações da tecnologia;
- quais riscos estão envolvidos.
Essa é uma evolução natural da perícia, que historicamente já incorporou conhecimentos de auditoria, direito e finanças.
Desafios técnicos e metodológicos para a perícia
A incorporação do blockchain como fonte de evidência traz desafios relevantes.
Acesso e interpretação dos dados
Nem sempre os dados em blockchain são facilmente compreensíveis. Em muitos casos:
- as informações são codificadas;
- exigem ferramentas específicas para leitura;
- dependem de interpretação técnica especializada.
Integração com documentos tradicionais
Na prática, a perícia exigirá o cruzamento entre:
- registros em blockchain;
- documentos contábeis tradicionais;
- contratos, notas fiscais e escriturações.
A coerência entre essas fontes continuará sendo fundamental.
Metodologia pericial
O perito deverá ser capaz de:
- explicar claramente como analisou os dados em blockchain;
- demonstrar a confiabilidade das fontes utilizadas;
- manter a rastreabilidade do seu próprio trabalho.
Ou seja, a tecnologia não elimina a metodologia, mas a torna ainda mais relevante.
Limites jurídicos e cautelas na utilização do blockchain como prova
Do ponto de vista jurídico, o uso de registros em blockchain como meio de prova ainda passa por amadurecimento. Assim, o perito deve considerar:
- a admissibilidade da prova no caso concreto;
- o grau de aceitação pelo juízo ou tribunal arbitral;
- a necessidade de contextualização técnica no laudo;
- a ausência de padronização normativa em muitos casos.
Assim como ocorre com outras inovações, o Judiciário e os profissionais técnicos evoluem gradualmente na compreensão e utilização dessas ferramentas.
Oportunidades para o perito preparado
Apesar dos desafios, o blockchain representa uma oportunidade para o perito contábil que busca se diferenciar. Entre os possíveis ganhos estão:
- maior eficiência na análise de determinadas transações;
- fortalecimento da rastreabilidade da informação;
- ampliação do campo de atuação em disputas que envolvem ativos digitais;
- valorização do profissional com visão interdisciplinar.
O diferencial não está em dominar a tecnologia de forma isolada, mas em integrá-la à análise contábil, com rigor técnico e senso crítico.
Conclusão
O blockchain inaugura uma nova lógica de registro e validação de informações, com potencial de impactar profundamente a forma como dados contábeis e financeiros são analisados.
Para a perícia contábil, trata-se de uma ferramenta relevante, mas que não elimina a necessidade de interpretação, metodologia e julgamento técnico.
O perito contábil continua sendo o elemento central da prova pericial. A tecnologia, por mais sofisticada que seja, não substitui a análise crítica, a fundamentação técnica e a responsabilidade profissional.
O futuro da perícia contábil não será definido apenas pela tecnologia disponível, mas pela capacidade do perito de utilizá-la com critério, segurança e competência técnica.
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